terça-feira, 23 de agosto de 2016

nem uma vida silvestre,


por outros quilos de dentes azuis teria aberto as duas janelas, esperado os coelhos, o capim santo,
sua outra volta pela piscina sem fundo, a espingarda sem peso, o choque elétrico.
três léguas de fitas cassetes.
vestido verde de listras pretas.
mãe que espanta morcego com vassoura. 
da vez que o pai dançou uma música do simon & garfunkel em um ano-novo e as irmãs choraram,
não se conta réveillons em casa sem ossos, sem vinho de jabuticada. 
decidiram pelo abate do bezerrinho,
choro, festa, costura, chagas, guisado.
dizem que sobre umas das bordas, espuma e gotas mornas.

terça-feira, 14 de junho de 2016

coney island


a alegria que estala sob as botas novas,
não é tempo de furação, 
milhas de luzes, de crianças, 
cães em agasalhos marítimos.

os seus braços longos e um parque com sereias de caudas roxas
então, não é tempo de blecautes,
o carrossel gira e sobrevoa os zunidos da península,
mil orlas de ventos, plásticos mágicos vindos da coreia, da china,
olhos turquesa de cavalos de uma pérsia inventada.

de quando a montanha-russa de madeira,
navios de gritos e seu sorriso da infância,

testamento de peixes-fluorescentes, plumas de dinossauros,
já é hora de pousar a perna, de colecionar espinhas,
medulas em veraneio, galopes de mil sonhos.






sábado, 30 de abril de 2016

da série: natation synchronisee; do jean baptiste courtie


da série: natation synchronisee; do jean baptiste courtie

da morte sem galope de golfinho, sem cardume ou lagartos

'quase um gorjeio de ave açaimada no escuro'

sem rito o pai perde o filho
na falta de cume, o rio transborda pedregulhos,
onde o músculo gelado da perna torta do fotógrafo
ouviram um rasgo de papel brilhante
alumbra com o resto de páscoa perlongada no embrulho-andarilho
passa a teu sem esperança,
a fotogênica lembrança da morte.

terça-feira, 19 de abril de 2016

família cervídea neotropical


de resto, guarda sempre o rumor dos disparos, nem o luto da praça-prece como um pássaro pato nem a chuva sem o resto de cachorro atropelado levado ontem pelos meninos que engoliam balas quentes para o choro entrar menos frio no pulmão. a camiseta da greta 'bela lugosi's dead' dependurada em uma maquete de estante de livros polinizando uma nova cepa de mofo no livro roxo, algo da épica do povo de pasolini, adiante dois colchões traçados pela textura carunchada do piso ainda lameado das nossas botas e a música replicante de um álbum que só o tales mesmo gostava. conforme o trinado de luz adquiria uma coloração mina de carvão e as escamas do cataclismo pousavam no colchão demorava o despertador anunciar o dia natimorto da próxima sete horas da manhã. dormimos sem perceber o incêndio da lanchonete de pombos que ficava no térreo, a janela deslizada desconcertava os dentes, todos, a boca inchada de medo. a greta gritava nãomargotospombosestãomortoselesnãovãoentraragora. sem rosto, com mil dentes no abrigo antiquário, quantos pés no banheiro, lavavam meus olhos com um barro quase batismal de uma pia que urrava doença. a população, desenhada nas paredes pelo tales, do  filo chordata; classe mammalia; ordem artiodactyla família cervidae; espécies: veado-cariacu - Odocoileus virginianus, veado-campeiro - ozotoceros bezoarticus, cervo-do-pantanal - blastocerus dichotomus, veado-roxo - mazama nemorivaga, veado-catingueiro - mazama gouazoubira, veado-mãocurta - mazama nana, veado-materio - Mazama americana e veadomateiro-pequeno - mazama bororo, parecia duvidar daquela chacina do marasmo dos últimos dias. tantas silhuetas em uma casa que milharal assombrado enchia de insetos ao primeiro toque dos celulares. a rodoviária com a sua placa de natal sobrecarregada de piscas-piscas alertava um volte logo.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

peixes-cascalhos-diadema



o antigo em rastilho de corte,
fogo claro em madeira de roça
altissonante vestido de raposas,
delírio da moça que caçava e ensopava patos.
fadiga da irmã,
grito do pai,
perigo da mãe.

da cadeira: pinos de pinheiro
um corpo da anatólia colado na parede
quadrilha de pássaros, uivo de escombro
aporta o rio sem móveis
sem despojos da fazenda-outra

três animais sem rabos,
uma carroça de mudança,
dois cavalos machucados
e, o rio lá, dispensa 

nem três dos vizinhos 
corpos faróis 
línguas-alarmes:
peixes-cascalhos-diadema


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

microfoninho para cantar a morte



duas paredes finas na cidade da avó. vento de povoado com cemitério de velho-oeste. visita cercada de bichinhos pretos colados na calça felpuda: metade tapete, metade urso de pelúcia da tia que conduzia as crianças. meia dúzia de gritos que engoliam um líquido espesso de ranço de roça; leite, fubá, besouro, ovo e canela. 
a procissão da morte em uma kombi amarela do vendedor de animais empalhados. de última hora clamaram ao homem de olho de vidro o carro emprestado, a esposa respondeu que a kombi era legado de um outro senhor, dono de circo, morto na redondezas. que tivessem cuidado para o defunto não despertar com o barulho do motor. que não estragassem o punhado de galos que repassariam pr'um bando de garimpeiros alocados na estrada de queimados.
como um carro baqueado de pipoqueiro com aquele micro botijão de gás que terrorista-roliço ameaça praça, coreto, criança, a kombi desfilava. nenhuma explosão, poucos pombos em letargia pela falta de migalhas, espancados pelo coveiro que parecia com o james dean, metade das pernas de feridas escondidas. não havia uma epidemia, era febre de família, morte costumeira. tudo era calculado.
da última vez que relembraram o cortejo fúnebre choraram em gastura pela epiderme de casca de asa ressecada daquela galinha (era galo! beliscava a outra) que mostraram como se fosse mágica da ressurreição. voltaram duas vezes. da primeira vez com a tia de roupas de carpete que exalava naquele batom roxo uma cor de festa de brinquedos estragados, como se aviõezinhos de luzinhas e buzinas descascadas se colassem ali como promessa de uma diversão antiga. da segunda vez, com a mesma tia que carregava agora um filho que nem de longe parecia parente, muito menos primo, tampouco perderiam seus nomes de mascates de que tanto se orgulhavam para se transformarem em prima greta, primo tales, prima margot, prima charlotte, primo saulo, pelo menos não para aquele menino que chorava a morte de um tio-avô com crucifixo e colônia guardada em embalagem de plástico. anunciava a sua missão de quaresma: lavar a lápide. o lodo, o verde-musgo que há exatos sete anos tinha servido para nomear a bola de sorvete de boldo que a mesma tia insistia em prover como especiaria para momentos tristes, para momentos de cruzada-espanto da tristeza. queriam o lodo lá, o lodo era parte da passagem com aquele trenó que nunca chegaria ao polo norte, nem ao céu.
não adiantava excursões. não adiantava o rogo enlouquecido das outras tias que nos ameaçavam com um missal de verbetes altissonantes como broa de milho, memória, acidente, pais, orgulho, cidade, padre, rádio. 
voltava sempre pra despensa dos brinquedos. coloquei o meu-primeiro-gradiente na mochila frankstein, costurada pela colega do curso, com estampas do ramones, do cramps, do new york dools. um furto solitário sem meus comparsas de velório, de primeiras agulhadas, das cinco horas e meia de viagem que nos separavam da despensa e de todo o resto. 
tudo que eu mais queria na volta era cantar no microfoninho aquela música do barão vermelho que gritávamos dentro do carro emprestado. o galo também nunca tinha cantado.


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

salga o corpo,

'we can be heroes, for ever and ever
what d'you say?'
eu te pareço peixe?
o sumo de uma queda, a sorte de um cântico selvagem (sem clareiras)
quando viram o corpo perdido nas águas
restava botas e três castigos (posse de brusco arremesso)
casta noite que perlonga na estátua de branco bico,
pássaro sem cintura que voa baixo,
por que a piscina musgueada?
recolhe o tempo das promessas (falta serragem para a procissão)
faz o horror vencer,
não há mais uma noite para sermos heróis. 


quinta-feira, 9 de julho de 2015

vale-de-cavalos-vivos


qual dança em mil clarões de berlins para a hora-refúgio do eterno?
no vale de cavalos vivos, tudo que faltou ao casebre rebocado do orto fosco.
de musgos, peixes, dentes e frio no norte de árvores gigantes,
brilho em um vestido de pasto, salto na poça verde. 
porque no canto selvagem, sobrevoo de tremura
ninguém diria dos gritos tidos em ti a mim,
chuva de carvalho apodrecido no leito,
ainda distante tumbas sem pétalas,
planície de olhos marinhos,
nada além de risos.  

domingo, 22 de fevereiro de 2015

capim-milharal

sem ronda aquela noite terminou sem lanternas nos óculos sujos de fevereiro. éramos cinco que dentro daquele brinquedo comportávamos como aranhas sem mães. depois do milho comido às pressas pelo tales que sentado em um banco improvisado, o elefantinho manco do carrossel, o parque escurecia com a chuva forte. faltavam galochas. a greta chamava o moço do milho e a trilha pantanosa de volta manchava o vestido da margot que naquele dia parecia um vitral de catedral do interior da frança. não teve farmácia, nem hospital, o carro setenta e sete ainda não funcionava quando chovia e tudo restava com gosto de milho e morte nos olhos deles

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

cartão-plâncton-postal


desça, desça, desça. faltava pouco para a cidade amanhecer na meia afunilada pelo outro pé do tales quase asfixiado pelo canto já morto de um despertador que tocava um henry lee desbotado sem a voz da pj harvey. só as calçadas daquelas ruas magras levariam ao zoológico de ventos da cidade pasmada em páscoa perpétua. na quinta aula o trapézio, na nona, outro comboio de passos de uma morte. só o coelho estático. pelo leito gradeado do rio, a ponte esquece das velhas casas. daquele ano de aviões tropeiros: duas dezenas de porta retratos lá na despensa. enquanto nadadores supitavam pedregulhos e as piabas desconjuntadas flutuavam rio acima, a turma dos cães molhavam o cimento com a taquicardia de deixar a epiderme afinada. lembra que a cidade inteira parecia tomada por uma corrente oceânica, o pesadelo enfunado no cabelo abraçado pelos braços machucados do mesmo puma-77 que boiava no mar pequeno da nossa cidade? éramos já um rapto, duas sereias de rabos silvestres.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

retina com choro

“Eu sou Arnaut que amasso o ar (que amo Laura)/ que caço a lebre com o boi/ e nado contra a maré”
(Arnault Daniel traduzido por Augusto de Campos)

avermelhar dois dias porta de ishtar adentro,
lesão de crimes pelo mar fantasma de minas.
naquele outro trem, garotos encovavam o longe do sol
falta o barulho de chuva no joelho sem hospital, 
falta a diamantina de galochas azuis em praça sem choro.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

afina a garganta


afina a garganta
não fossem os olhos trincados, 
mesmo que não venha o pássaro de dorso rosa risca a piscina sem soro de pescado vivo
sobre o tempo do regressoroubo afoga o tiroteio de plumas.



domingo, 10 de agosto de 2014

landscape


tomba o seio no nome de sino, cala o morto do poço 
vidrada no corte guarda o barulho de segredo, 
não importa o peso do carro setenta e sete, devolvo o tiroteio.


todo o resto de rabo de sereia


aquela não é uma terra de capim grosso, mata sem vento.
bicho sem mãe no calo torto de um cavalo murcho, 
toda noite, toda festa.

terça-feira, 8 de julho de 2014

rum sem coca-cola

atira ao maverick esqueleto duas outras trombas de água
ombro em arroio,
carcaça sem saudade.

lagoa santa.


do dia que arrastou a perna aberta pelo resto de uma árvore do nosso quintal com coelhos, sem galinhas, um grito murcho. falava-se de uma chuva que encolhia bichos, adoecia crianças, curava a doença do barbeiro e o moço ainda de chapéu, ainda com o desenho daquele senhor johnston estampado na camiseta. ela pedia o bote. o outro soletrava a dor no có-k-cis. Não há uma costa, endureça os olhos, por aqui somente um depósito de serras, você sabe.

domingo, 29 de junho de 2014

o aquário perde a fé


despista o tímpano, volta ao mar
o aquário perde a fé,
retoma o caldo.
a menina não mora mais aqui.
outra vez o barco, o trem, a vendinha de remédios
extravio naquele peso de fantasmas aos faros de ramos.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

oceanografia


quando a volta parecia um jingle descaroçado de refrão, a bacia dói. não há espaço para o alongamento de mamíferos em um vagão golpeado por sapatos imundos. depois do coelho sobrou a brancura de uma ave ainda em marcha no olho dele que a greta costumava abrir com um sopro fechado, de boca quase cerrada como nas preces em dia de novena na casa da avó, a mesma do meu vestido costurado em pleno junho, longe do alívio, perto da tia esburacada pela doença do azar. éramos parentes sem ao menos depositarmos o restante das férias ao treco de esperança. 

sábado, 17 de maio de 2014

nenhuma diamantina a mais

de pé, esconde a chaga. 
havia no osso arrastado o porto de uma copa sem pássaros,
chove, o nadador escreve a tumba no pesar marsupial
luz perdida no mergulho lama,
era no tempo do jequitinhonha acumulado de geada, 
como se a pistola apontada, velha cicatriz...
é meia-noite em um colo de ventania, popa de escolta,
captura de meia dúzia de sereias à distância da cidade vidrada.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

palmos sem babel


não volta. foi em 1989, o saco herdado. quando tinha seis anos e o berrante enfunado do avô aos pés de botas com escorpião, chispas de uma fazenda enferrujada. a montanha de balanços quebrados e o corpo arqueado da tia como um cisne adoentado em um canto doloroso, a radiografia do descascado no rosto da mulher, no corpo dos brinquedos, a perda pura dos terrores que amansados se colavam nas paredes debulhadas pelas chuvas. escurecia cedo. na distorção dos sapos, o corpo vela. das bocas com línguas finas uma garoa de café estirando o resto de coelho no cabelo sem mar.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

tejuco

prematuras plumas, do horto a ática sem teseu
silvo do trem, limo saciado do verde.
praga aquosa, o próximo vagão,
fugido, o barrabás
mementos sem passado.
a dura carne do fantasma sem marés, na cova da montanha

sexta-feira, 4 de abril de 2014

vintena de espigas


diz ao olho de uvas baças,
à custa dos crimes de circe
melhor o corte.
ao largo da luneta, ninguém na fotografia
com a cantiga de um cemitério mineiro no bico,
vaga risante o porco em pelos vermelhos
porque pousado o dardo lume.

sexta-feira, 28 de março de 2014

gália

átomo do animal pesado na torre
galocha aberta pela porta ensoleirada de fugas
volta, o unicórnio curtido em quimera
cama, lado morno da tosse, tiroteio de líquens
olho, carvão sem penas 

quinta-feira, 20 de março de 2014

piscina sem cavalos.


o pedreiro remendava a parede que na minha cabeça fazia parte do lombo acinzentado do weimaraner da vizinha de coluna torta, sempre vestida em um colete. eles em um filme de ação, o cão sem costas porque em uma construção tudo se perde, a dor dela repontada nos joelhos de bailarina morta. falavam dos volts perdidos em uma mão sardenta. bang-bang, o estouro da água.
como o tio da avó que em 1920, na aparição de quatro cavalos, deixou um bilhete de aniversário para a mãe com os presentes bambeados de sono.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

era difícil falar besouro. ali viviam besourros



da luz baldeada para o rosto da criança polvilhada de biscoito estávamos de costas para o resto de animal amontoado no tapete do alpendre de uma avó que teimava com o conserto de um abajur laminado por um faquinha encorpada de nódoas de sangue. ainda abanava o peixe meio vivo em uma pia quase banheira daquele bebê de passos-caracol que disseram patinava medo pelo tombo na piscina do quintal.
já não podia correr e segurá-lo pelo braço que se não fosse todo pintado de bolas chamaria a atenção pelo osso torto. mas corria. corrida com o pé torto, com o corpo embrulhado de férias empenadas. buscava um pai no quarto aberto de besouros. era difícil falar besouro. ali viviam besourros e uma vó ajoelhada em um mini círculo de milhos puídos pela cartilagem solta da mulher. na falta do som das pernas, o comboio de bichos trazido pela escuridão ultrapassa a parede verde. a janela continua fechada. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

pôneis embebedados na rua


pôneis embebedados na rua que saltou do carro pesado de laticínios da avó boa,
desse mundo condenado, as pernas machucadas e o braço ainda afagando meia dúzia de equinos
naquele estouro de poste, asfalto brilhante, botas lambidas, rosto sem um olho,
o canto perdido de um cão albino do bairro no tumulto da morte

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

arrasa um bosque


lamentos daquilo que um dia foi pata, 
era pônei sentinela de três poços rasos de um azul enlamaçado
recesso de choro piado do unicórnio inventado
toma os sapatos, arrasta a orelha molhada, chama a neblina enforcada
esfuma o vidro entumbado da  casta volta.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

dobras de fantasma.


um milhão de cachorros ressonados em uma cama cova
roupa malsinada pela febre de três cidades abandonadas, 
(volta, volta, volta)
braços cedidos na falta de chuva
e com a casa piscante de festa o rumor sem espuma encalha nos biscoitos.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

sobrevoo aquático



o azul em quadrados, fundear de volta n'um sobrevoo aquático sem o braço seu,
diante do pouso rupestre em uma casa detrás de outro aniversário da morte de um pai solto.
de cada vez que os olhos descansam no passo de ossos arrastados resta um clarão de manhãs,
volta sem fuga, retorno sem motim em acúmulos de nuvens contadas por uma janela longe do zoológico da cidade.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

monte esquilino


faltava um avô, o seu, de botões nos olhos inchados por uma doença acolhida n'um inseto quase-mamífero, de hábitos noturnos. agora ele chora, senta. escuto um escorregão, um distúrbio na densidade óssea murmura a outra de saia cinza que apertada esgana qualquer vértebra parente das minhas em desvio, em deformação. recoloca os sapatos, desfaz a mala cheia de uma poeira branca, não demora para os seios pequenos, endurecidos com a indulgência do inverno mineiro que tarda, mas não falha, voltarem ao tales, menos magro. nunca vi nada assim: as bolas ressequidas, machucadas, enfim, diferentes. deitei com o tales com os sapatos escuros, não eram botas, eram os sapatos da galeria homônima a uma das sete colinas de roma, adquiridos entre um retoque da vitrine e o brutal sentimento do roubo que fortalecia os joelhos, as pernas, os dentes. também tinha vindo pelo grau baixo entocado nas janelas forradas por um papel de parede esfarinhado, o dedo adoentava mais o processo de descolagem daquilo que filtrava nossas tardes e noites em manhãs de farmácia.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

bang-bang


o nariz ossudo com uma cartilagem solta, quase grampeada pelo acúmulo de uma poeira rosada lembrava parte da viagem que na briga dos patos arqui-selvagens o cão arenoso perdeu parte do focinho úmido. espera pela consulta, o rádio sentencia uma campanha de vacinação para crianças, espalhadas pelo chão de azulejo de banheiro as poças do sangue apressam o tempo. mas naquele posto, caminho de qualquer câmera ávida pelo bang-bang ele ouvia uns gritos e me oferecia um analgésico espumado em uma caneca entocada de uma papa ofertada a um bando de passarinhos apenados e despenados. a voz da senhora de meias listradas, esta seria minha salvação. isso era um exagero. não naquele local onde os quilômetros ao pai morto se encurtavam. depois do cruzamento ouvimos um disco inteiro do elvis magrelo que você adorava chamar de elvis-tatu. podia-se vomitar, caminhar, escarificar um pedaço em suor das suas costas, a busca pelo seu pai irresgatável vinha de uma economia que não queria velar, estendia o pé e o cascalho humanizando as rodas, o cheiro contido de um verão lutuoso que se parece estranhado agora, antes parado nos intestinos era a promessa de uma vida dentro de uma piscina repleta de cavalos-marinho, balões e um ou outro boiando sem a certeza dos pulmões cheios de ar. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

daria no mesmo se fossem aranhas


porque não consegui salvar os dentes daquele gigante de flandres. não sei se dá para afundar os pés na lagoa-formigueiro que outro dia a greta disse ter visto o coelho quase se afogar. eu implorava à irmã do porta-retrato que chegasse logo com as galochas escarificadas já que odiávamos os emblemas da marca colados no plástico cor de beterraba. então começamos a ouvir desde o último disparo engasgado de uma pistola com nome de igreja daqueles vilarejos povoados por garimpeiros mancos, embrutecidos de feridas, envergados das promessas aos filhos esquecidos em outros cantos, um gemido meio coral de farpas de uma mobília cercada por acidentes. por força do medo, era difícil localizar o mês. das fatias de poeira empurradas pelos pássaros engastalhados: a ruína dos seus vestidos. minha viuvez de um mamífero da família dos leporídeos tampouco serviu para os desenhos das férias. daria no mesmo se fossem aranhas.

domingo, 1 de setembro de 2013

campina-violência


há menos de três horas o cabelo fora cortado, virou a cabeça para alcançar uma criança que chorava em berros de bode ferido na estrada antes de qualquer curativo, afago ou morte. a tesoura atinge o topo do olho esquerdo ainda seco das alergias rebatidas em um cômodo apertado em musgos, lodo misturado com restos de xampus vazados de uma porção de plásticos tortos de estações sem clientes, sem velhas que fogem, sem crianças que brotam com as mãos empenhadas em um sorvete meio de resina, meio de suspiro. quando as traquitanas marcadas do sangue pousaram no resto achatado da visão buscou os pés, partiu de vestido em um trecho abanado pela peruca de fios compridos.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

paroaria dominicana


para a falta de lázaros:
aqueles crimes de corrida sem o canto da bicicleta murcha, arrendonda de muros.
roda após outra, o rasgo de um parque tremido sem parte do brinquedo de fibra-de-vidro.
falam dos braços estirados, hastes de ossos luminosos de duas irmãs buscando pássaros de cabeça roxa e amarela,
na fila, desde os pés sovados, ficam as chispas de três fitas K7 mais brancas que o assalto de penas.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

reptilário


córnea aplanada em viagem seca no carro alongado, pequena relíquia.
dentro do rádio, o chiado curvado de um mormaço desde o carpete-pântano,
com o composto rocha, gim e caixas para o banho,
seu vidro entorta.
sem ganas, falha o futuro.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

bata no néon.


no penoso luto dos fósseis, outro choque de avião sem quina nem fantasmas,
pedi ao pai de sapatos largos outro beijo fundo, longe da planície sem piscinas abertas.
falta para a roupa vestida três punhados de latidos que não chegam há sete verões vacilados.
rota fria em cidade rodeada de bichos sem faíscas.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

trem-fantasma.


pela cloração da noite estancada em um terraço menos baldio que as pernas
deixei o prédio de tijolinhos em solução salina de chuva
o que era aquele correr de solas cartilaginosas de meia dúzia de patos renegados do parque,
quem há de pousar o agasalho no passo torto do animal de voo aberto em buracos?
sendo rabos e pulsos, o rompimento pelo pulo,
no relance de penas.  



quarta-feira, 31 de julho de 2013

caixilho lodoso


tinha falado de duas voltas na praça das piscinas. estranho, porque a essa altura os nadadores dormiam debaixo de uma dezena de lâmpadas emboloradas pela umidade das paredes germinadas, pelo enfeite meio móbile das páginas amareladas de chá conseguido às custas de duas procissões com o pai da margot que achava a vida difícil. esse homem mantinha um tanque de girinos embolados. esperei atrás do balcão dos produtos de limpeza, as mãos quase velhas mergulhavam naquela grande bacia que nem em época de chuvarada lembraria um rio desassoreado. sobe a escada pantanosa, a greta regressa com o corpo enodado. nada de choro, novelo de veias, cones surrupiados, gás do hospital que contorna o bairro em prensas quase retratos, quase desenho em pedra calcária dos três antes do acidente do tales naquele retângulo azulejado, poço de água retalhada pela carniça boiante que até hoje despenca do olho dele quando a cama balança apontando o amanhecer. o pai volta, permanece calado, busca outro anfíbio cativo. a cicatriz dela desde o tombo assume uma contraface de coisa molhada, de planta desarranjada e molhada, era isso. desconfio, disse ela, limpando com força de escavadeira a garganta em calefação pela ferida da era mesozoica descoberta ontem, que a inalação das caldas molengas deles seja a causa da tosse, mas ninguém deu ouvidos naquele estreito da casa onde o cão dorme babado, sonhado e sem fome. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

tristeriviera


com três estrondos um bando de pássaros descarrilou a rinite rosada 
não há partida longe do corpo rasante
pesca de papel colado em carpete dormido não redime a costa.  
debaixo dos beirais, morte até o par de janelas fundas.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

branco-galochas-novas


no outro dia desfez da cartilagem 
nesse nono dia de parte aberta ao faroeste arrastou músculo delgado na boca sem lâmpadas,
do linóleo em mosaico, pares de pés exilados.
dentes serrilhados naquela banheira esmaltada do branco-galochas-novas. 


sexta-feira, 12 de julho de 2013

fotoscopia


o ânimo de um cardume que desfolha a solução radioativa
uma vez entorna o caldo fumaça de faixa regressa
volto à voz, tua rua de ventos e cachorros parados
deita no poço despelado do giz tremido.
tomo de cortes
arraso no sangue, medo do açougue. 

domingo, 7 de julho de 2013

sem dias para injeções.


veste cortinas. tecidos que depois dos moldes escondem as fissuras de carne puída entre a lonjura da praça e a luz mole do casarão ainda pintado daquele rosa abatido tão insistido pelo tales antes de mudar, levar os tapetes da avó, trancar a dupla de bicicletas em um armário com cheiro de guarda-roupa e me dizer que a doença do pânico sumiria quando eu batesse os pés na piscina. voltou setenta centímetros do vestido andante alémbolsos de mãos pasmadas pelo atrito que depois encolhe tudo, até os passos ao portão. a greta chegou antes um pouco da farmácia virada à direita apertar o número delas e desaguar uns potes de xaropes, uns tubos de pomadas com corantes de pântanos e outras caixas que desfiveladas ocuparam toda a mesa abaulada. como a margot esquecera de alertar sobre a entrega, a outra resolve pescar com o braço pintado de feridas dois tubos e uma cartela meio carta de jogo da memória. vendo a noite no bairro de gárgulas em sorrisos de meia curva, três insetos também pousaram no machucado forçado enquanto a voz amarrotada da margot pedia outros remédios. sonhou que tinha voltado ao hospital perambulado de trotes de mortes, desmemoriada, sem a glória de uma costurada, para beber no copo trincado de sei lá quem uma noite preparou chá de gesso em promessas de fincar esculturas baratinhas no jardim da casa dela.  

sábado, 6 de julho de 2013

depois da terra do pônei mineiro


por menos de uma bizâncio, 
o pé violado sem despesas envelhece em terras do estreito.
lembra das luvas de nuca de uma menina de partilhas fungadas.
e se, o osso estourado da boca contasse das neoplasias sem verão, com gosto de árvores de natal estufadas em parque abandonado,
perderia o fraco pulo de coelho pintado?

quarta-feira, 3 de julho de 2013

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Galeria ALFINETE
A mostra "Aim Djâst Lukyn" (1998-2013), do artista Oziel Primo Araujo
116n. B. 66
Sábado dia 13 
5 da tarde

sábado, 29 de junho de 2013

um guarda-chuva à prova da noite clara


'i have no more empty heart or limbs to break'

quando as patas apertadas pelo som do frio torceram em um barulho afastado
você, com o nariz quebrado, pedaço de uma fauna do paleoceno berrava.
meu comboio de duas mãos,
esse pranto trocado no tronco branco.
por falta do dilúvio da piscina desmontada,
perde os cavalos, o vidro, os peixes.



sexta-feira, 28 de junho de 2013



(Alice Barnole, Madeleine, L'Apollonide - Souvenirs de la maison close)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

manhã rupestre


o olho apagado na véspera sem aleluias. na colheita dos ovos, a letargia daquele de pernas curtas, o vizinho chinês, de quem a greta roubou os chinelos de neve solada preferindo a impostura ao balcão do barulho. no corpo de sobras seu rim de pelúcia volta para o nosso prato matutino. fingimos o banquete. nada mais mete medo quando o banheiro com os azulejos suturados da fazenda derramam um caldo vagaroso, cheio de azar e fedor. o mesmo dos quadros da margot. das minhas bisnagas vencidas. três deles, sem o outro de galochas. duas delas, então. as meninas de vestidos ralos riem, sobem para o canto. 

domingo, 16 de junho de 2013

ronda de léguas.


fora do tapete o pé retraçado por uma cirurgia de emergência pôs-se a vacilar, dessa vez sem a garantia da pelagem que durava o tempo de um sono mal curado pela voltagem de um cabelo que vinha-ia. parelhas de remédios duros. havia acabado o corrido de festa jogada em cima de piscina mofada, sem nado dela, afinal nunca aparecia com o musgo nos lábios. e ali ficou por três horas com um cisco boiado no olhar de tronco, corpo de pássaro moído pedindo coisas que a margot tentava entender. saiam menores do bico, não alçavam voo, paravam no ar e a alergia se impunha com o vigor na rinite tola abrigada na narina rala. rala não, trancada. eu fungava uma voz colateral sem medidas, fumegante de chá comprado em armarinho do bairro afastado.
o cirurgião sabia que amanhã a avó retornaria com os shampoos caros e insistiria na limpeza dos fios, por isso avisou para a margot sobre o banho seco, sem banheira, sem perfume. o tales deve o silêncio ao outro corte retângulo. aproveitaram a entrada e esquartejaram o menino sem mãe, o neto da espuma branca ainda de saia violeta, salto marrom, mãos atrofiadas de tantos banhos assegurados aos móveis. pincei um pedaço da minha nádega com a mão, suspendi um pouco. a massa quieta dele. a retidão do sono estatelado nos quatro minutos soltos. falta placas. sim, eu vi apenas três.

terça-feira, 11 de junho de 2013

moluscos, piscinas de carvão, florestas sem mamíferos.


surdo, encostando no crânio de um predador inchado da luz negra, pavilhão de reparos.
o marco do banho em comprimento de onda anil entouca o focinho na réplica magra sem tinta branca,
ainda espalhada, 
sedimentada pelas faixas e trombas dos pés.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

outono sem outono.


o estoque de ventos quentes desfazia a esperança do corpo ereto em presença da lesão que alegrava os outros dois, parados em um banheiro tão praia quanto os seus pés arenosos de curativos marrons, talvez pelo iodo, ou pela sujeira do casarão ainda preso na avenida inchada de serragem no mês, perto do março. descemos piscando as luzes, o gato ondulava a barriga e no outro instante teria iluminado o bairro inteiro com a queda antecipada. depois disso, suas pernas pararam por cinco anos. até a sirene em redemoinho vermelho invadir a sobra de casa, o quadril fixo fugia do rabo esmagado da lagartixa apelidada killer, meses antes, pela sobrinha adoecida por uma pilha de bactérias, eu te chupava em silêncio, tirava notas de sangue daquela corrida paralisada. enquanto a mecânica dos quarteirões faz cruzar o tempo, a porta solta dura menos que a lonjura do canto do pássaro preso, despertado pelo medo de sempre. tenho pensado nas aves migratórias, no metabolismo, no sono, no fôlego. principalmente no sono suspenso em madrugada tropical. mas não era isso. a câmera aberta do hospital lembra o corvo marinho, o biguá, quieto e manso sem o seu voo insone. foi no fim de um programa chapado que repetiu o nome biguá quando, em menos de um minuto de música, os olhos abertos do tales derrubaram sussurros. dessa vez, dormi sem retranscrever a história das outras aves. 

sábado, 1 de junho de 2013

sobre 'Os Malaquias':



a irrupção de pequenos acontecimentos fantásticos, o ethos mineiro ressonado em requintes de imagens se arriscam em uma escalada memorialística à deriva entre a fatalidade da orfandade, o comezinho das paredes descascadas de um interior oscilado no rural que se alastra virando currutela e o inesperado acionado na dinâmica dos corpos, na arquitetura de lares inundados e, sobretudo na linguagem concisa acossada pelas subtramas disparadas em dicção surrealista.
as liberações do outro em Os Malaquias, de Andréa Del Fuego, acontecem sem aquelas tentativas comprometidas da voz narrativa decalcar retidão e seus correlatos teleológicos de ascensão de soluções, tampouco, o exercício de emular a realidade aparece como condição para a emergência de uma espacialidade fortuita, tão concreta quanto fantasmática.


'Eneido deixou Timóteo na boca da caverna e foi para o fundo dela, sua casa. Tinha cavalo-marinho seco e triturado, que ele salpicava numa concha cheia de arroz cozido no calor da caverna aos poucos. Pedaços de carne ainda com pele de bicho peludo, defumados nas toras escuras. Timóteo não se assustou com nada, era de assombro o seu estado. Pensava com que frases falaria aos amigos o que viu e mais, calculava jeito de não dizer como chegou até ali. Para voltar depois, sozinho.' (Del Fuego, Andréa. Os Maláquias. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2010)